ANIVERSARIANTES DO MÊS

ANIVERSARIANTES DO MÊS

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CAPÍTULO 2


DO VÍCIO DA PRÓPRIA VONTADE

1 Disse o Senhor a Adão: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2,16-17).
2 Podia, pois, Adão comer de toda árvore do paraíso e, enquanto nada fazia contra a obediência, não pecava.
3 Come, porém, da árvore da ciência do bem e do mal aquele que reclama sua vontade como propriedade sua e se vangloria dos bens que o Senhor diz e opera nele.
4 Assim, atendendo às sugestões do demônio e transgredindo o mandamento, foi-lhe dado o pomo da ciência do mal. Por isso tem que suportar necessariamente o castigo.

CAPÍTULO 1


DO CORPO DO SENHOR


1 Disse o Senhor Jesus aos seus discípulos: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém chega ao Pai senão por mim.
2 Se me reconhecêsseis conheceríeis também o Pai. Doravante o conheceis porque o vistes.
3 Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta.

4 Jesus respondeu-lhe: há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Filipe, quem me vê, vê também meu Pai" (Jo 14,6-9).
5 "O Pai habita numa luz inacessível" (1Tm 6,16), e: "Deus é um espírito" (Jo 4,26) e "ninguém jamais viu a Deus" (Jo 1,18).
6 Se Deus é espírito, só em espírito pode ser visto;
7 pois "o espírito é que dá a vida, a carne não aproveita para nada" (Jo 6,63).
8 Mas também o Filho, sendo igual ao Pai, não pode ser visto por alguém de modo diferente que o Pai e o Espírito Santo.
9 Por isso são réprobos todos aqueles que viram o Senhor Jesus Cristo em sua humanidade sem enxergá-lo segundo o espírito e a divindade e sem crer que Ele é o verdadeiro Filho de Deus.
10 De igual modo são hoje em dia réprobos todos aqueles que - embora vendo o sacramento do corpo de Cristo que, pelas palavras do Senhor, se torna santamente presente sobre o altar, sob as espécies de pão e vinho, nas mãos do sacerdote – não olham segundo o espírito e a divindade, nem crêem que se trata verdadeiramente do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Atesta-o pessoalmente o Altíssimo quando diz:
11 "Este é o meu corpo e o sangue da nova Aliança" (cf. Mc 14,22); e:
12 "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna" (cf. Jo 6,55).


13 Por isso é o Espírito do Senhor, que habita nos seus fiéis, quem recebe o santíssimo corpo e sangue do Senhor (cf. Jo 6,62).
14 Todos aqueles que não participam desse espírito e no entanto ousam comungar, “comem e bebem a sua condenação” (1 Cor 11,29).
15 Portanto, “ó filhos dos homens, até quando tereis duro o coração?” (Sl 4,3). Por que não reconheceis a verdade “nem credes no Filho de Deus” (Jô 9,35)?
16 Eis que Ele se humilha todos os dias (Fl 2,8); tal como na hora em que, “descendo do seu trono real” (Sb 18,5) para o seio da Virgem,
17 vem diariamente a nós sob aparência humilde;
18 todos os dias desce do seio do Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote.
19 E como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado.
20 E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (cf. Jo 20,28),
21 assim também nós, vendo o pão e o vinho com os nossos olhos corporais, olhemos e creiamos firmemente que está presente o santíssimo corpo e sangue vivo e verdadeiro.
22 E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis, conforme Ele mesmo diz:
23 “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).

CAPÍTULO LIII



Como, celebrando a missa, Frei João do Alverne caiu como se estivesse morto. 

Para o dito Frei João, no sobredito lugar de Molliano, como contaram os frades que estavam presentes, aconteceu uma vez este caso admirável, que, na primeira noite depois da oitava de São Lourenço e dentro da oitava da Assunção de Nossa Senhora, tendo dito matinas na igreja com os outros frades, e sobrevindo-lhe a unção da divina graça, ele foi para o bosque contemplar a paixão de Cristo e dispor-se com toda a sua devoção para celebrar a missa, que lhe tocava cantar naquela manhã. E, estando em contemplação das palavras da consagração do corpo de Cristo, isto é: Hoc est corpus meum, e considerando a infinita caridade de Cristo, pela qual ele não somente quis comprar-nos com o seu sangue precioso, mas até deixar-nos como alimento das almas o seu corpo e sangue digníssimo; começou a crescer-lhe em tamanho fervor e em tamanha suavidade o amor do doce Jesus, que sua alma já não podia mais suportar tanta doçura, mas gritava forte e como ébrio de espírito, sem se cansar de dizer consigo mesmo: Hoc est corpus meum. Pois dizendo essas palavras parecia-lhe que estava vendo Cristo bendito com a Virgem Maria e com uma multidão de anjos. Ao dizer isso era iluminado pelo Espírito Santo sobre todos os profundos e altos mistérios daquele altíssimo Sacramento. 
Quando chegou a aurora, ele entrou na igreja com aquele fervor de espírito, com aquela ansiedade e com aquelas palavras, crendo que ninguém o ouvia nem via. Mas havia um frade em oração no coro, que estava ouvindo e vendo tudo. Como ele não podia conter-se naquele fervor pela abundância da graça divina, gritava em alta voz. E ficou tanto tempo desse jeito que chegou a hora de dizer a missa. Então ele foi se preparar para o altar e começou a missa. E quando mais nela se adiantava, mais lhe crescia o amor de Cristo e aquele fervor da devoção, com o qual lhe era dão um sentimento de Deus inefável, que ele mesmo não sabia nem podia expressar com a língua. Então, temendo que aquele fervor e sentimento de Deus crescesse tanto que lhe conviesse deixar a missa, ficou muito perplexo e não sabia para que lado ir: continuar a missa ou ficar esperando. 
Mas, como lhe acontecera uma outra vez um caso semelhante, e o Senhor tinha temperado de tal maneira aquele fervor que não tivera que deixar a missa, confiando que ia poder fazer o mesmo desta vez, pôs-se a continuar a missa, com grande temor. Quando chegou ao prefácio de Nossa Senhora, começou a crescer tanto a sua iluminação e a graciosa suavidade do amor de Deus que, chegando ao Quipridiequam, mal podia suportar tanta suavidade e doçura. 
Finalmente, quando chegou o ato da consagração e já tinha dito metade das palavras sobre a hóstia, isto é,Hoc est enim, não conseguia de modo algum continuar, mas ficou repetindo essas palavras: Hoc est enim. E a razão pela qual não podia ir mais adiante é porque sentia e via a presença de Cristo com uma multidão de Anjos, cuja majestade não podia suportar. E via que Cristo não entrava na hóstia, nem que a hóstia se substanciava no corpo de Cristo se ele não proferisse a outra metade das palavras, isto é: corpus meum. 
Então, estando nessa ansiedade e sem continuar, o guardião, os outros frade e mesmo muitos seculares que estavam na igreja para ouvir a missa, aproximaram-se do altar e estavam espantados de ver e considerar os atos de Frei João. Muitos deles choravam de devoção. 
Afinal, depois de um bom espaço de tempo, isto é, quando aprouve a Deus, Frei João proferiu corpus meum em alta voz. De repente, a forma do pão desapareceu, e na hóstia apareceu Jesus Cristo bendito, encarnado e glorificado, e lhe demonstrou a humildade e caridade que o fizeram encarnar-se da Virgem Maria, e que o fazem vir todos os dias às mãos do sacerdote quando consagra a hóstia. 
Por causa disso, ele foi elevado na doçura da contemplação. Por isso, tendo elevado a hóstia e o cálice consagrado, ele foi arrebatado para fora de si mesmo. Estando sua alma suspensa dos sentimentos corporais, seu corpo caiu para trás e, se não fosse sustentado pelo guardião, que estava atrás, teria caído deitado por terra. 
Então os frades e os seculares que estavam na igreja, homens e mulheres, acorreram e levaram-no para a sacristia como morto, pois seu corpo tinha esfriado como um corpo morto, e os dedos das mãos tinham se fechado tão fortemente quem nem podiam se estender ou mover. Ficou assim prostrado como morto, ou arrebatado, até terça. E era verão. 
E como eu, que estive presente, desejava muito saber o que Deus tinha feito com ele, assim que ele voltou a si, fui procura-lo e pedir-lhe, pela caridade de Deus, que ele me dissesse tudo. Então ele, porque confiava muito em mim, contou-me tudo bem ordenadamente. Entre outras coisas, disse-me que, considerando o corpo e o sangue de Jesus Cristo mesmo antes, seu coração estava líquido como uma cera muito amolecida, e sua carne parecia estar sem ossos de modo que quase não podia levantar os braços nem as mãos para fazer o sinal da cruz sobre a hóstia nem sobre o cálice. Também me disse que, antes de se fazer padre, tinha-lhe sido revelado por Deus que ele devia desmaiar na missa. Mas, como já tinha dito muitas missas e isso não lhe acontecera, pensava que a revelação não tinha sido de Deus. Entretanto, cinco anos antes da Assunção de Nossa Senhora em que lhe aconteceu o caso referido, também lhe tinha sido revelado por Deus que aquele caso deveria acontecer por volta da festa da Assunção. Mas depois ele não se recordara dessa revelação. 
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO LII


Da visão de Frei João do Alverne, na qual conheceu toda a ordem da santa Trindade. 

O sobredito Frei João do Alverne, porque já tinha afogado perfeitamente todo amor e tentação mundana e temporal, e tinha posto em Deus todo o seu amor e toda a sua esperança, dava-lhe a divina bondade maravilhosas consolações e revelações, especialmente nas solenidades de Cristo. Daí, aproximando-se uma vez a solenidade do Nascimento de Cristo, em que de certo ele esperava consolação de Deus pela doce humanidade de Jesus, o Espírito Santo colocou em seu ânimo tão grande e excessivo amor e fervor da caridade de Cristo, pela qual ele se havia humilhado para assumir nossa humanidade, que na verdade parecia-lhe que a alma lhe tivesse sido tirada do corpo e estivesse queimando como uma fornalha. 
Não podendo sofrer esse ardor, angustiava-se e se derretia todo, gritando em alta voz, pois que pelo ímpeto do Espírito Santo e pelo grande fervor do amor, não podia conter-se em gritar. E na hora daquele fervor desmesurado, vinha-lhe também uma esperança tão certa e forte de sua salvação que, por nada deste mundo acreditava que, se morresse nessa ocasião, deveria passar pelo purgatório. E esse amor permaneceu nele bem seis meses, ainda que o excessivo ardor não fosse contínuo, mas vinha em certas horas do dia. 
Nesse tempo recebeu maravilhosas visitas e consolações de Deus. E muitas vezes foi arrebatado, como viu o frade que escreveu estas coisas pela primeira vez. Entre elas, uma vez foi tão elevado e arrebatado em Deus, que viu no Criador todas as coisas criadas, celestiais e terrenas, e todas as suas perfeições, graus e ordens distintas. E então ficou sabendo claramente como toda coisa criada se apresentava ao seu Criador, e como Deus está acima, dentro, fora e ao lado de todas as coisas criadas. Também ficou conhecendo um Deus em três pessoas e três pessoas em um Deus, e a infinita caridade que fez o Filho de Deus encarnar-se por obediência ao Pai. E finalmente ficou sabendo naquela visão como não havia nenhum outro caminho pelo qual a alma pudesse ir para Deus e ter a vida eterna, a não ser por Cristo bendito, que é caminho, verdade e vida da alma. 
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO LI


Do santo frade Tiago de Fallerone; e como, depois que morreu, apareceu a Frei João do Alverne. 


No tempo em que Frei Tiago de Fallerone, homem de grande santidade, estava gravemente doente no lugar de Molliano, na custódia de Fermo, Frei João do Alverne, que morava então no lugar de Massa, ouvindo falar de sua enfermidade, pois que o amava como seu pai querido, pôs-se em oração por ele, pedindo a Deus devotamente com oração mental que desse saúde do corpo ao dito Frei Tiago, se fosse melhor para sua alma. E estando nessa devota oração, foi arrebatado em êxtase e viu no ar um grande exército de Anjos e Santos acima de sua cela, que estava no bosque, com tanto esplendor que toda a região ao redor ficou iluminada. E entre esses Anjos viu o Frei Tiago doente, por quem ele rezava, que estava todo resplandecente em roupas cândidas. Viu ainda entre eles o pai bem-aventurado São Francisco adornado com os sagrados estigmas de Cristo e com muita glória. Viu também e reconheceu Frei Lúcido santo, e Frei Mateus, antigo, do monte Rubbiano e mais outros frades, que nunca tinha visto nem conhecido nesta vida.
E olhando assim Frei João com grande satisfação aquela fileira de Santos, foi-lhe revelada como certa a salvação da alma do dito frade doente, e que devia morrer daquela doença, mas não tão prontamente, e depois da morte devia ir para o paraíso, pois convinha purificar-se um pouco no purgatório. Frei João ficou tão alegre por essa revelação pela salvação da alma, que não se ressentia nada pela morte do corpo, mas com grande doçura de espírito chamava-o dentro de si mesmo dizendo: “Frei Tiago, meu doce pai, Frei Tiago, meu doce irmão, Frei Tiago, fidelíssimo servo e amigo de Deus; Frei Tiago, companheiro dos Anjos e consorte dos Bem-aventurados”. E assim, nessa certeza e gáudio, voltou a si, partiu imediatamente do lugar e foi visitar Frei Tiago em Molliano.
Encontrando-o tão grave que mal podia falar, anunciou-lhe a morte do corpo e a salvação e glória da alma, segundo a certeza que tivera pela divina revelação. Por isso Frei Tiago ficou todo alegre no ânimo e no rosto, recebeu-o com grande alegria e com um riso amável, agradecendo pelas boas notícias que trazia e recomendando-se a ele devotamente. Então Frei João pediu-lhe encarecidamente que depois de sua morte devia voltar a ele para falar de seu estado. Frei Tiago o prometeu, se aprouvesse a Deus. E, ditas essas palavras, aproximando-se a hora do seu passamento, Frei Tiago começou a dizer devotamente aquele versículo do Salmo: In pace in idipsum dormiam et requiescam, isto é: “Na paz na vida eterna vou adormecer e repousar”. E dito esse verso, com rosto agradável e alegre passou desta vida. 
E, depois que foi sepultado, Frei João voltou para o lugar de Massa e esperava a promessa de Frei Tiago, que voltasse a ele no dia que tinha dito. Mas, nesse dia, estando ele a orar, apareceu-lhe Cristo com grande companhia de Anjos e Santos, entre os quais não estava Frei Tiago. Por isso Frei João, muito admirado, recomendou-o a Cristo devotamente. 
Depois, no dia seguinte, orando Frei João no bosque, apareceu-lhe Frei Tiago acompanhado pelos Anjos, todo glorioso e todo alegre, e Frei João lhe disse: “Ó pai caríssimo, por que não voltaste a mim no dia que prometeste?”. Frei Tiago respondeu: “Porque eu tinha necessidade de alguma purificação, mas, naquela mesma hora em que Cristo te apareceu e tu me recomendaste a ele, Cristo ouviu e me libertou de toda pena. E então eu apareci a Frei Tiago de Massa, leigo santo, que estava ajudando a missa. E vi a hóstia consagrada, quando o padre a levantou, convertida e mudada na forma de um menino vivo belíssimo, e lhe disse: “Hoje, vou com aquele menino para o reino da vida eterna, ao qual ninguém pode ir sem ele”. Ditas essas palavras, Frei Tiago desapareceu e foi para o céu com toda aquela bem-aventurada companhia dos anjos; e Frei João ficou muito consolado. 
O dito Frei Tiago de Fallerone morreu na vigília de São Tiago apóstolo, no mês de julho, do sobredito lugar de Molliano; no qual, pelos seus méritos, a divina bondade operou depois de sua morte muitos milagres. 
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO L


Como, dizendo missa no dia dos mortos, Frei João do Alverne viu muitas almas libertadas do purgatório. 


Dizendo uma vez o dito Frei João a missa no dia seguinte a Todos os Santos por todas as almas dos mortos, como a Igreja mandou, ofereceu com tanto afeto de caridade e com tanta piedade de compaixão aquele Santíssimo Sacramento (que por sua eficácia as almas dos mortos desejam sobre todos os outros bens mais do que tudo se possa fazer por elas) que ele parecia estar sendo todo derretido pela piedade e caridade fraterna. Por isso, naquela missa, levantando devotamente o corpo de Cristo e oferecendo-o a Deus Pai, implorando-lhe que por amor de seu bendito filho Jesus Cristo, que para recomprar as almas tinha pendido na cruz, que lhe aprouvesse libertar das penas do purgatório as almas dos mortos, por ele criadas e recompradas.
Imediatamente ele viu um número quase infinito de almas saindo do purgatório, como inumeráveis fagulhas de fogo que saem de uma fornalha acesa, e viu-as subir para o céu pelos méritos da paixão de Cristo, que todos os dias é oferecido pelos vivos e pelos mortos, naquela sacratíssima hóstia, digna de ser adorada in saeculasaeculorum.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO XLIX

Como Cristo apareceu a Frei João do Alverne. 

Entre outros sábios e santos frades e filhos de São Francisco, que, segundo o que diz Salomão, são a glória do pai, houve em nossos tempos, na dita província da Marca, o venerável e santo Frei João de Fermo, que, por ter morado muito tempo no santo lugar do Alverne, passando aí desta vida, também era chamado Frei João do Alverne. Pois foi um homem de vida singular e de grande santidade. 
Esse Frei João, sendo um menino secular, desejava de todo coração o caminho da penitência, que mantém a limpeza do corpo e da alma. Por isso, sendo um menino bem pequeno, começou a usar o cilício de malha e o círculo de ferro nas carnes, e a fazer grande abstinência. E especialmente quando morava com os cônegos de São Pedro de Fermo, que viviam esplendidamente, ele fugia das delícias corporais e macerava o corpo com grande rigidez de abstinência. Mas como os companheiros eram muito contrários a isso, e lhe tiravam o cilício e impediam de diversas maneiras a sua abstinência, ele, inspirado por Deus, pensou em abandonar o mundo com os seus amadores, e oferecer-se todo aos braços do Crucificado, com o hábito do crucificado São Francisco. E assim fez. 
Tendo sido recebido na Ordem tão menino, e confiado aos cuidados do mestre de noviços, tornou-se tão espiritual e devoto que, algumas vezes, ouvindo o mestre falar de Deus, seu coração se derretia como a cera junto do fogo. E se aquecia com tão grande suavidade de graça no amor divino, que ele, não podendo estar parado para suportar tanta suavidade, levantava-se e, como ébrio de espírito, punha-se a correr, ora pelo horto, ora pelo bosque, conforme a chama e o ímpeto do espírito o impeliam. Depois, com o correr do tempo, a divina graça fez este homem angélico crescer continuamente de virtude em virtude, em dons celestiais e em divinas elevações e arrebatamentos, tanto que às vezes sua mente era elevada aos esplendores dos Querubins, às vezes aos ardores dos Serafins, às vezes aos gáudios dos bem-aventurados, outras aos amorosos e excessivos abraços de Cristo, não só pelos gostos espirituais interiores, mas também por expressos sinais de fora e gostos corporais. E, singularmente, pelo modo excessivo, uma vez a chama do divino amor acendeu seu coração e a chama durou bem três anos. 
Nesse tempo, ele recebia maravilhosas consolações e visitas divinas, e muitas vezes era arrebatado em Deus. Em breve, nesse tempo, ele parecia todo afogueado e aceso no amor de Cristo. E isso aconteceu no monte santo do Alverne. Pois, como Deus tem um cuidado especial por seus filhos, dando-lhes, de acordo com as diversidades dos tempos, ora consolação, ora tribulação, ora prosperidade, ora adversidade, como ele vê quem precisa disso para manter-se em humildade ou para acender mais o seu desejo das coisas celestiais. 
Aprouve à divina bondade, depois dos três anos, tirar do referido Frei João esse raio e essa chama do amor divino, e privou-o de toda consolação espiritual: pelo que Frei João ficou sem luz e sem amor de Deus, todo desconsolado, aflito e dolorido. Por isso ele andava tão angustiado pelo bosque correndo de cá para lá, chamando com voz, prantos e suspiros o divino esposo de sua alma, que se tinha escondido e ido embora, e sem a sua presença sua alma não encontrava descanso nem repouso. Mas em lugar nenhum e de modo algum ele podia reencontrar o doce Jesus, nem reaver aqueles suavíssimos gostos espirituais do amor de Cristo, como estava acostumado. E essa tribulação lhe durou muitos dias, nos quais perseverou em contínuo pranto, suspirando e rogando a Deus que lhe devolvesse, por sua piedade, o dileto esposo de sua alma. 
No final, quando aprouve a Deus ter provado suficientemente sua paciência e acendido seu desejo, um dia em que Frei João ia pelo dito bosque todo aflito e atribulado, por cansaço sentou-se e se encostou numa faia, e estava com o rosto todo banhado em lágrimas, olhando para o céu. Eis que de repente apareceu Jesus Cristo junto dele no atalho por onde Frei João tinha vindo, mas não dizia nada. Vendo-o Frei João, e reconhecendo-o bem, que era Cristo, lançou-se de repente aos seus pés e, com desmesurado pranto, suplicava humildemente e dizia: “Socorre-me, Senhor meu, porque sem ti, meu Salvador dulcíssimo, eu estou em trevas e em pranto; e sem ti, Anjo muito manso, eu estou em angústias, penas e medo; sem ti, Filho do Deus Altíssimo, eu estou em confusão e vergonha; sem ti eu estou despojado de todo bem e cego, pois tu és Jesus Cristo, verdadeira luz das almas; sem ti, estou perdido e condenado, pois tu és a vida das almas e a vida das vidas; sem ti eu sou estéril e árido, pois tu és a fonte de todo dom e de toda graça; e sem ti eu estou totalmente desconsolado, porque tu és Jesus nossa redenção, amor e desejo, pão que confortas e vinho que alegras o coração dos Anjos e o coração de todos os santos. Ilumina-me, mestre graciosíssimo, pois eu sou tua ovelha, ainda que seja indigno”. 
Mas porque o desejo dos santos homens, que Deus tarda para atender, acende-se para maior amor e mérito, Cristo bendito foi embora sem ouvi-lo e sem lhe dar nada, e foi pelo referido atalho. Então Frei João levantou-se depressa e foi atrás dele, jogou-se outra vez aos seus pés e o reteve com uma santa importunidade e lhe suplicou com lágrimas muito devotas, dizendo: “Ó Jesus Cristo dulcíssimo, tem misericórdia de mim atribulado. Atende-me pela multidão da tua misericórdia e pela verdade da tua salvação, devolve-me a alegria do teu rosto e do teu piedoso olhar, pois que da tua misericórdia está cheia toda a terra”. E Cristo ainda se retirou e não lhe disse nada, nem lhe deu nenhuma consolação. E fez como faz uma mãe com a criança, quando faz que ela grite pelo peito e faz com que ela venha atrás chorando, para que depois ela mame com mais vontade. 
Então Frei João ainda seguiu Cristo com maior fervor e desejo; e, quando chegou a ele, Cristo bendito voltou-se para ele e o olhou com um rosto alegre e gracioso, e abrindo seus santíssimos e braços cheios de misericórdia, abraçou-o com toda doçura. Quando ele abriu os braços, Frei João viu sair do sacratíssimo peito do Salvador raios de luz resplandecentes, que iluminavam todo o bosque e ele também, na alma e no corpo. 
Então Frei João se ajoelhou aos pés de Cristo; e Jesus bendito, como fez com a Madalena, estendeu-lhe o pé benignamente para que o beijasse. E Frei João, tomando-o com a maior reverência, lavou-o com tantas lágrimas que na verdade parecia uma outra Madalena, e dizia devotamente: “Eu te peço, meu Senhor, que tu não olhes para os meus pecados, mas para a tua santíssima paixão e para o derramamento de teu santíssimo sangue precioso, ressuscites minha alma na graça do teu amor, pois esse é o teu mandamento, que nós te amemos com todo o coração e com todo o afeto; e esse mandamento ninguém pode cumprir sem a tua ajuda. Ajuda-me, portanto, amantíssimo Filho de Deus, de modo que eu te ame com todo o coração e com todas as minhas forças”. 
E estando assim Frei João a dizer essas palavras aos pés de Cristo, foi ouvido por ele e readquiriu dele sua primeira graça, isto é, a chama do amor divino, e se sentiu todo renovado e consolado; e sabendo que o dom da divina graça tinha voltado a ele, começou a agradecer a Cristo bendito e a beijar devotamente os seus pés. Depois se endireitou para olhar Jesus no rosto, e Jesus lhe estendeu e apresentou as mãos santíssimas para ele beijar. Quando Frei João as beijou, apressou-se e se encostou no peito de Jesus, abraçando-o e beijando-o, e Cristo também o abraçou e beijou. Nesses beijos e abraços, Frei João sentiu tanto perfume divino que se todas as espécies odoríferas e todas as coisas perfumadas do mundo tivessem sido reunidas teriam parecido um mau cheiro e comparação com aquele perfume. Nisso Frei João foi arrebatado, iluminado e consolado, e aquele perfume perdurou em sua alma por muitos meses. 
E daí em diante, de sua boca, que tinha bebido na fonte da divina sabedoria no sagrado peito do Salvador, saíam palavras maravilhosas e celestiais, que mudavam os corações, que faziam um grande fruto na alma de quem as ouvia. E no atalho do bosque, em que pisaram os pés benditos de Cristo, e em um bom espaço ao redor, Frei João sentia aquele perfume e via aquele esplendor sempre que ia lá e muito tempo depois. 
Voltando Frei João a si depois daquele arrebatamento, tendo desaparecido a presença corporal de Cristo, ele permaneceu tão iluminado na alma, no abismo da sua divindade, que mesmo não sendo um homem letrado por estudo humano, ele resolvia admiravelmente e aclarava as muito sutis e elevadas questões da Trindade divina e os mistérios da santa Escritura. E muitas vezes, falando diante do papa e dos cardeais, dos reis e dos barões, e a mestres e doutores, deixava todos num grande estupor pelas altas palavras e tão profundas sentenças que dizia. 
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO XLVIII


Como frei Tiago de Massa teve uma visão todos os frades menores do mundo, na visão de uma árvore, e conheceu a virtude, os méritos e os vícios de cada um. 


Frei Tiago de Massa, a quem Deus abriu a porta de seus segredos e deu perfeita ciência e inteligência da divina Escritura e das coisas futuras, foi de tanta santidade que Frei Egídio de Assis, Frei Marcos de Montino, Frei Junípero e Frei Lúcido diziam que não conheciam ninguém neste mundo maior diante de Deus do que este frei Tiago. 
Eu tive grande desejo de vê-lo, pois pedindo a Frei João, companheiro do dito Frei Egídio, que me esclarecesse certas coisas do espírito, ele me disse: Se queres ser bem informado na vida espiritual, procura falar com Frei Tiago de Massa, pois Frei Egídio desejava ser iluminado por ele, e a suas palavras não se pode ajuntar nem tirar, pois sua mente passou para os segredos celestiais e suas palavras são palavras do Espírito Santo, e não há nenhum homem sobre a terra que eu tanto deseje ver”. Esse Frei Tiago, no princípio do ministério de Frei João de Parma, estando uma vez a orar, foi arrebatado em Deus e ficou três dias nesse arrebatamento de êxtase, suspenso de todo sentimento corporal. E ficou tão insensível que os frades duvidavam se não estava morto. Nesse arrebatamento foi-lhe revelado por Deus o que devia ser e acontecer a respeito de nossa religião. Por isso, quando o ouvi, cresceu-me o desejo de ouvi-lo e de falar com ele. 
E quando aprouve a Deus que eu tivesse oportunidade de lhe falar, supliquei-lhe deste modo: “Se é verdadeiro o que eu ouvi falar de ti, eu te peço que não o escondas de mim. Eu ouvi que, quando estiveste três dias como morto, entre outras coisas que Deus te revelou foi o que devia acontecer nesta nossa religião. E quem disse isso foi Frei Mateus, ministro da Marca, a quem tu revelaste por obediência”. Então Frei Tiago, com grande humildade, concedeu-lhe que o que Frei Mateus tinha dito era verdade. 
O que o dito Frei Mateus, ministro da Marca, tinha dito era isto: “Eu soube por Frei Tiago, a quem Deus revelou o que vai acontecer na nossa religião; pois Frei Tiago de Massa me manifestou e disse que, depois de muitas coisas que Deus lhe revelou sobre o estado da Igreja militante, ele teve uma visão de uma árvore bonita e muito grande, cuja raiz era de ouro, mas seus frutos eram homens, e todos frades menores. Seus ramos principais distinguiam-se de acordo com o número das províncias da Ordem, e cada ramo tinha tantos frades quantos havia na província marcada no ramo. E então ele soube o número de todos os frades da Ordem e de cada província, e também seus nomes, idade, condições, grande cargos, dignidades, graças de todos, e as culpas. E viu Frei João de Parma no lugar mais alto do ramo do meio da árvore. E no alto dos ramos que estavam em torno desse ramo do meio, estavam os ministros de todas as províncias. Depois disso, viu Cristo sentar-se em um trono enorme e branco. Cristo chamava São Francisco e lhe dava um cálice cheio de espírito de vida, mandando-o beber e dizendo: “Vai visitar os teus frades, e dá-lhes de beber neste cálice do espírito da vida, pois o espírito de Satanás se levantará contra eles e os ferirá, e muitos deles cairão e não se levantarão”. E Cristo deu a São Francisco dois anjos para acompanhá-lo. 
Então São Francisco foi apresentar o cálice da vida aos seus frades, e começou a oferece-lo a Frei João, que, tomando-o, bebeu tudo, depressa e devotamente, e de repente ficou todo luminoso como o sol. Depois dele, São Francisco apresentava-o seguidamente a todos os outros, e havia poucos deles que com a devida reverência e devoção o tomassem e bebessem tudo. Os que o tomavam devotamente e bebendo tudo, tornavam-se de repente esplêndidos como o sol. E os que derramavam tudo e não o tomavam com devoção, tornavam-se negros, escuros, deformados para ver e horríveis. Os que bebiam uma parte e derramavam a outra, ficavam em parte luminosos e em parte tenebrosos, e mais ou menos segundo a medida em que bebiam ou derramavam. 
Mas, acima de todos os outros, o sobredito Frei João estava resplandecente, pois tinha bebido mais completamente o cálice da vida, e por isso tinha contemplado mais profundamente o abismo da infinita luz divina, e nela tinha entendido a adversidade e a tempestade que devia levantar-se contra a árvore, sacudindo e derrubando seus ramos. Por isso o dito Frei João saiu do alto do ramo em que estava e, descendo abaixo de todos os ramos, escondeu-se na solidez do tronco da árvore, e lá estava todo pensativo. 
E Frei Boaventura, que tinha tomado uma parte do cálice e derramado a outra, subiu para o ramo e para o lugar de onde Frei João tinha descido. E estando nesse lugar, as unhas de sua mão tornaram-se unhas de ferro, aguçadas e cortantes como navalhas. Então ele se moveu do lugar onde tinha subido e queria, com ímpeto e furor, lançar-se contra Frei João para prejudicá-lo. Mas Frei João, vendo isso, gritou forte e se recomendou a Cristo, que estava sentado no trono. E Cristo, ao seu grito, chamou São Francisco e lhe deu uma pederneira afiada, dizendo: “Vai com essa pedra e corta as unhas de Frei Boaventura, com as quais ele quer arranhar Frei João, para que não possa fazer-lhe mal”. 
Então São Francisco foi e fez como Cristo lhe tinha mandado. Feito isso, veio uma tempestade de vento e feriu a árvore tão fortemente que os frades caíam no chão. E caíam primeiro os que tinham derramado todo o cálice do espírito da vida, e eram carregados pelos demônios para lugares tenebrosos e penosos. Mas Frei João, junto com outros que tinham bebido todo o cálice, foram levados pelos Anjos para um lugar de vida, de luz eterna e de esplendor bem-aventurado. E o dito Frei Tiago, que via a visão, estava olhando e discernindo particular e distintamente, com toda clareza, os nomes, condições e estados de cada um. E a tempestade durou tanto sobre a árvore que ela caiu e foi levada pelo vento. Depois, logo que acabou a tempestade, da raiz de árvore, que era de ouro, saiu uma outra árvore toda de ouro, que produziu folhas, flores e frutos dourados. Dessa árvore e da sua expansão, profundidade, beleza, perfume e virtudes é melhor calar do que falar disso agora. 
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO XLVII

Daquele santo frade a quem a Mãe de Cristo apareceu, quando estava doente, e lhe trouxe três potinhos de electuário. 

No sobredito lugar de Soffiano, houve antigamente um frade menor de tão grande santidade e graça, que tudo parecia divino e muitas vezes era arrebatado em Deus. Estando uma vez esse frade todo absorto em Deus e elevado, pois tinha notavelmente a graça da contemplação, vinham a ele pássaros de diversos tipos e pousavam domesticamente sobre suas costas, sobre a cabeça e sobre os braços e mãos, e cantavam maravilhosamente. Ele era muito solitário e raras vezes falava, mas quando era interrogado sobre alguma coisa, respondia tão graciosa e sabiamente que parecia mais um anjo do que um homem, e era de grandíssima oração e contemplação, e os frades tinham muita reverência por ele.
Quando esse frade cumpriu o curso de sua vida virtuosa e, segundo a disposição divina, ficou doente à morte, tanto que não podia tomar coisa alguma, e por isso não queria tomar nenhum remédio carnal, pois toda a sua confiança estava no médico celestial Jesus Cristo bendito e na sua bendita Mãe. Ele mereceu, pela divina clemência, ser misericordiosamente visitado e medicado por ela.
Estando ele uma vez na cama, preparando-se para a morte com todo o coração e com toda a devoção, apareceu-lhe a gloriosa Virgem Maria Mãe de Cristo, com uma enorme multidão de anjos e de santas virgens, com maravilhoso esplendor, e se aproximou de sua cama. Então, olhando para ela, ele teve um enorme conforto e alegria, quanto à alma e quanto ao corpo, e começou a pedir-lhe humildemente que ela suplicasse ao seu dileto Filho que por seus méritos o tirasse da prisão da mísera carne. E perseverando nesse pedido com muitas lágrimas, a Virgem Maria lhe respondeu chamando-o pelo nome: “Não duvides, filho, pois ele atendeu ao teu pedido e eu vim para te confortar um pouco, antes que tu partas desta vida”.
Estavam ao lado da Virgem Maria três santas virgens, que carregavam nas mãos três potinhos de electuário, de desmesurado perfume e suavidade. Então a Virgem gloriosa pegou e abriu um dos potinhos, e toda a casa ficou cheia de aroma. E pegando um pouco daquele electuário com uma colherinha, deu-a ao doente que, assim que o provou, sentiu tanto conforto e tanta doçura que sua alma parecia que não podia mais ficar no corpo. Por isso, ele começou a dizer: “Basta, ó santíssima Mãe virgem bendita, ó médica abençoada e salvadora da geração humana; basta, que eu não posso aguentar tanta suavidade”. Mas a piedosa e benigna Mãe continuou servindo muitas vezes daquele electuário ao doente fazendo-o tomar, e esvaziou todo o potinho. Depois, esvaziado o primeiro potinho, a Virgem bem-aventurada pegou o segundo e pôs dentro a colherinha para lhe dar. Ele se lamentou docemente, dizendo: “Ó beatíssima Mãe de Deus, se a minha alma está toda derretida pelo perfume e a suavidade do primeiro potinho, como vou aguentar o segundo? Eu te peço, bendita sobre todos os santos e sobre todos os anjos, que me queiras dar mais. A gloriosa mulher respondeu: “Prova, filho, mais um pouco deste segundo potinho”. E dando-lhe um pouco, disse: “Agora, filho, já tens tanto que te pode bastar. Conforta-te, filho, que logo virei te buscar e te levarei para o reino de meu Filho, que sempre desejaste e procuraste”.
Dito isso, despediu-se dele e foi embora, e ele ficou tão consolado e confortado pela doçura do remédio que sobreviveu por muitos dias saciado e forte sem nenhum alimento corporal. Depois de uns tantos dias, falando alegremente com os frades, passou desta mísera vida com grande alegria e júbilo.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO XLVI




Como Frei Pacífico, estando em oração, viu a alma de Frei Húmilis seu irmão ir para o céu. 

Na dita província da Marca, depois da morte de São Francisco, houve dois irmãos na Ordem; um se chamava Frei Húmilis e o outro, Frei Pacífico; os quais foram homens de grandíssima santidade e perfeição. Um, Frei Húmilis, estava no lugar de Soffiano e aí morreu. O outro estava de família em um outro lugar muito longe dele. Como aprouve a Deus, um dia Frei Pacífico, estando em oração num lugar solitário, foi arrebatado em êxtase e viu a alma de seu irmão Húmilis indo direito para o céu, sem nada que a retivesse ou impedisse; nessa hora, estava partindo do corpo.
Aconteceu que, depois de muitos anos, esse Frei Pacífico que sobrou, foi posto de família no mesmo lugar de Soffiano, onde seu irmão tinha morrido. Nesse tempo, os frades, a pedido dos senhores de Bruforte, mudaram o seu lugar por outro. Por isso, entre outras coisas, eles transladaram as relíquias dos santos frades que tinham morrido naquele lugar. Chegando à sepultura de Frei Húmilis, seu irmão Frei Pacífico pegou os seus ossos e os lavou com bom vinho envolveu-os em uma toalha branca e com grande reverência e devoção, beijava-os e chorava. Por isso os outros frades se maravilhavam e não achavam que era bom o seu exemplo pois, sendo ele um homem de grande santidade, parecia que chorava seu irmão por um amor sensual e secular. Também, que demonstrava mais devoção pelas suas relíquias do que pelas dos outros frades, que tinham sido de santidade não menor que a de Frei Húmilis, e eram tão dignas de reverência quanto as suas.
Sabendo Frei Pacífico da sinistra imaginação dos frades, quis satisfaze-los com humildade e disse: “Meus irmãos queridos, não vos maravilheis se pelos ossos de meu irmão eu fiz o que não fiz para os outros, pois que, bendito seja Deus, não fui levado pelo amor carnal, como credes. Fiz isso porque, quando meu irmão passou desta vida, estando eu a orar num lugar deserto e afastado dele, via sua alma sair diretamente para o céu. Por isso estou certo de que seus ossos são santos e devem estar no paraíso. E se Deus me tivesse concedido tanta certeza dos outros frades, eu teria feito a mesma reverência aos seus ossos”.
Por esse motivo, os frades, vendo sua santa e devota intenção, ficaram bem edificados por ele e louvaram a Deus, que faz coisas tão maravilhosas para os seus santos frades.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

CAPÍTULO XLV




Da conversão, vida, milagres e morte do santo Frei João da Pena. 

Quando Frei João da Pena era criança e estudava na província da Marca, apareceu-lhe uma noite um menino belíssimo e o chamou dizendo: “João, vai a Santo Estêvão, onde está pregando um dos meus frades. Acredita na pregação dele e presta atenção em suas palavras, pois fui eu que o mandei. Feito isso, tu tens que fazer uma grande viagem e depois virás a mim”.
Por isso ele se levantou na mesma hora e sentiu uma grande mudança em sua alma. Foi a Santo Estêvão e aí encontrou uma grande multidão de homens e mulheres que lá estavam para ouvir a pregação. E o que devia pregar era um frade chamado Filipe, que era um dos primeiros frades que tinha vindo para a Marca de Ancona. Poucos lugares tinham sido tomados na Marca.
Esse Frei Filipe subiu para pregar e pregou com muita sabedoria, não palavras de sabedoria humana mas em virtude do espírito santo de Cristo, anunciando o reino da vida eterna. Quando acabou a pregação, o dito menino foi falar com Frei Filipe e disse: “Padre, se te aprouver receber-me na Ordem, eu de boa vontade faria penitência e serviria a nosso Senhor Jesus Cristo”.
Vendo Frei Filipe e conhecendo no referido menino uma maravilhosa inocência e pronta vontade de servir a Deus, disse-lhe: “Virás a mim tal dia em Recanati, e te farei receber”. Nesse lugar devia ser feito o capítulo provincial. O menino pensou que essa fosse a grande viagem que devia fazer, segundo a revelação que tinha tido, e depois iria para o paraíso. Achou que devia fazer isso logo que fosse recebido na Ordem. Por isso foi e o receberam, e vendo que seus pensamentos não se cumpriam então, como o ministro disse no capítulo que se alguém quisesse ir para a Província da Provença pelo mérito da santa obediência, ele lhe daria a licença, ficou com grande desejo de ir, pensando em seu coração que essa era a grande viagem que devia fazer antes de ir para o paraíso.
Mas, envergonhando-se de dize-lo, confiou afinal no predito Frei Filipe, que o tinha feito ser recebido na Ordem, pediu-lhe com insistência que lhe conseguisse a graça de ir para a província da Provença. Então Frei Filipe, vendo sua pureza e sua santa intenção, conseguiu-lhe a licença. Por isso Frei João pôs-se a andar com grande alegria, tendo por certa a idéia de que, acabado aquele caminho, iria para o paraíso. Mas, como aprouve a Deus, ele ficou na dita província vinte e cinco anos, nessa espera e desejo, vivendo em grandíssima honestidade, santidade e exemplaridade, crescendo sempre em virtude e graça de Deus e do povo, e era muito amado pelos frades e pelos seculares.
Estando um dia Frei João devotamente em oração, chorando e lamentando-se, porque o seu desejo não se cumpria e porque sua peregrinação desta vida estava demorando muito, apareceu-lhe Cristo bendito. Quando o viu, sua alma ficou toda derretida, e Cristo lhe disse: “Meu filho Frei João, pede-me o que quiseres”. Ele respondeu: Senhor meu, eu não sei o que te pedir, pois eu não desejo nenhuma outra coisa, mas só isto eu te peço, que tu me perdoes todos os meus pecados e me dês a graça de que eu te veja uma outra vez quando tiver maior necessidade”. Cristo disse: “Tua oração foi ouvida”. Dito isso, foi embora, e Frei João ficou todo consolado.
No fim, ouvindo os frades da Marca a fama de sua santidade, tanto fizeram com o geral, que lhe mandou obediência para voltar para a Marca. Recebendo essa obediência ele se pôs alegremente a caminho, pensando que, feita aquela viagem, devia ir para o céu, segundo a promessa de Cristo. Mas, tendo voltado à província da Marca, nela viveu trinta anos, e não era reconhecido por nenhum de seus parentes, e todos os dias esperava a misericórdia de Deus, que ele lhe cumprisse a promessa. E nesse tempo cumpriu diversas vezes o ofício de guardião com grande discrição. E, por ele, Deus operou muitos milagres.
Entre os outros dons que ele recebeu de Deus, teve o espírito de profecia. Por isso, uma vez, tendo saído do lugar, um seu noviço foi combatido pelo demônio e tão fortemente tentado que, consentindo na tentação, resolveu em si mesmo que ia sair da Ordem assim que Frei João voltasse de fora. Conhecendo por espírito de profecia essa tentação e essa decisão, voltou imediatamente para casa e chamou o dito noviço, dizendo que queria que ele se confessasse. Mas, antes de ele se confessar, contou-lhe direitinho toda a sua tentação, como Deus lhe havia revelado, e concluiu: “Filho, como tu me esperaste e não quiseste ir sem a minha bênção, Deus te fez esta graça, que jamais haverás de sair desta Ordem, mas morrerás na Ordem, com a graça divina”. Então o dito noviço foi confirmado na boa vontade e, permanecendo na Ordem, veio a ser um santo frade. Quem me contou todas essas coisas foi Frei Hugolino.
O dito Frei João, que era homem de ânimo alegre e repousado, e falava raras vezes, e era um homem de grande oração e devoção, e, especialmente depois de matinas, nunca voltava para a cela, mas ficava em oração até de dia. Estando ele em oração depois das matinas, apareceu-lhe o anjo de Deus e lhe disse: “Frei João, completou-se o teu caminho, como esperas há tanto tempo. Por isso eu te anuncio da parte de Deus que peças a graça que quiseres. E também te anuncio que escolhas o que preferes, ou um dia de purgatório ou sete dias de penas neste mundo”.
Como Frei João preferiu os sete dias de pena neste mundo, de repente ficou doente de diversas enfermidades, pois pegou a febre forte, a gota nas mãos e nos pés, o mal do lado e muitos outros males. Mas o pior para ele era que um demônio ficava na sua frente e segurava na mão um grande papel com o escrito de todos os seus pecados, que ele nunca tinha feito ou pensado, e lhe dizia: “Por estes pecados que fizeste com o pensamento, com a língua e por atos, tu estás condenado no fundo do inferno”.
E ele não se recordava de nenhum bem que jamais tivesse feito, nem que estava na Ordem, nem que jamais nela tivesse estado, mas assim pensava que estava condenado, como o demônio dizia. Por isso, quando lhe perguntavam como estava, respondia: “Mal, porque estou condenado”. Quando os frades viram isso, mandaram chamar um frade antigo, chamado Frei Mateus de Monte Robbiano, que era um santo homem e muito amigo desse Frei João. Quando esse Frei Mateus chegou a ele no sétimo dia de sua tribulação, cumprimentou-o e perguntou como estava. Ele respondeu que estava mal, porque estava condenado. Então Frei Mateus disse: “Tu não te lembras de que muitas vezes te confessaste comigo e eu te absolvi inteiramente de todos os teus pecados? Não te lembras também de que serviste sempre a Deus nesta santa Ordem, por muitos anos? Além disso, não te lembras de que a misericórdia de Deus é maior do que todos os pecados do mundo, e que Cristo bendito nosso Salvador pagou um preço infinito para nos recomprar? Por isso, tem muita esperança, porque por certo estás salvo”. Quando disse isso, como ele tinha chegado ao fim de sua purificação, foi embora a tentação e veio a consolação.
E, grande alegria, Frei João disse a Frei Mateus: “Como estás cansado e já é tarde, eu te peço que vás repousar”. Mas Frei Mateus não queria deixá-lo; mas, afinal, como ele insistiu muito, saiu e foi repousar. E Frei João ficou só com o frade que o servia. E eis que Cristo bendito veio com grande esplendor e com enorme suavidade de perfume, como tinha prometido que ia aparecer mais uma vez, isto é, quando tivesse mais necessidade, e o curou perfeitamente de todas as suas doenças. Então Frei João, com as mãos postas, agradecendo a Deus, porque com ótimo final tinha concluído sua longa viagem da presente mísera vida, recomendou nas mãos de Cristo e entregou sua alma a Deus, passando desta vida mortal para a vida eterna com Cristo bendito, que ele havia tanto tempo desejava e esperava ver. Repousa o dito Frei João no lugar da Penna de São João.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.

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